Tenho cultivado o hábito de ficar navegando pelo o youtube à procura de novos canais literários para acompanhar. E não há grandes dificuldades nisso, já que a plataforma está repleta de booktubers de todos os cantos do Brasil. E esse número parece que só continuará crescendo. Enfim...

Por outro lado, no meio disso tudo é bem fácil encontrar canais que trazem o mesmo do mesmo. Ou que, por algum motivo, não soa atrativo ou instigante a ponto de conquistar certos leitores. Talvez, isso se aplique mais a quem assiste vídeos sobre livros com bastante frequência, já que, por conta disso, a pessoa acaba se tornando mais exigente, sempre esperando algo mais.

Felizmente existem canais diferentões, que nos agregam conhecimento e que nos deixam sempre ansiosos por mais e mais conteúdo. E a sensação é ainda melhor quando os descobrimos por acaso. Portanto, é isso que eu vim mostrar a você: os canais literários que descobri por acaso, e que, consequentemente, estou adorando acompanhar. Vale a pena conhecer!


Ler antes de morrer, por Isabella Lubrano
Conheci o canal da Isa através do programa "Como Será", da Rede Globo. Eu não costumo assisti-lo, até que um belo dia acabei vendo um comercial onde a chamada do próximo programa prometia exibir uma reportagem acerca de pessoas que comandam canais sobre literatura no youtube. O Ler antes de morrer apareceu em grande destaque, especialmente porque ele é levado de forma profissional. Depois disso tratei de conhecê-lo melhor, e, desde então, sempre estou acompanhando as novidades. O diferencial da Isa é trazer os clássicos com frequência, de modo leve, descontraído e interativo, e instigante.


Livros & post it, por Adriana Zampolli
O canal da Adriana eu descobri através de uma pesquisa, onde eu buscava por desafios de leitura. Como ela faz muitos projetos (bem legais, diga-se de passagem), eu acabei chegando até os vídeos do Livros & post it. O que mais me agrada nesse canal, além dos projetos, é a forma como a Adriana conduz suas resenhas. Acho ela tão verdadeira, tão leve, tão ela, que a impressão é que estamos conversando de verdade. Sem contar na sensação que ela passa, de ter prestado atenção em cada detalhe das obras lidas, fazendo considerações sempre muito pertinentes. Gosto muito! É uma pena que ela esteja gravando menos agora.


Livro & café, por Francine Ramos
Muita gente conhece o Livro & café por conta do blog. Eu não o conhecia... aliás, atualmente eu só acompanho o canal mesmo. E gosto bastante! A maturidade da Fran resulta em conteúdo com livros diferenciados e interessantes, saindo do mesmo de sempre. E ela é ótima conduzindo uma resenha, sempre com comentários interessantes e mostrando um ponto de vista bem preciso. Se você gosta de clássicos e/ou de Virgínia Wolf, essa é uma ótima pedida.


Tem que ler, por Karoline Rodrigues
Conheci o canal bem por acaso, ainda quando ele dava seus primeiros passos. Só que, originalmente, o Tem que ler já existia bem antes disso. Ele era uma coluna do extinto blog Harlan Coben Brasil, cuja ideia era ler e resenhar um clássico por semana. Agora, o canal se tornou o projeto literário de três meninas que, juntas, comandam um blog e algumas redes sociais com a mesma marca/nome. Só que quem está a frente do canal é apenas a Karol, que traz em suas resenhas questões a parte através de uma narrativa bem produzida. Ela mostra que por trás de seus vídeos existe uma produção de verdade. Muito bom!

~*~

Então, é isso. Eu acompanho outros canais, claro. Canais ótimos que não entraram nessa lista porque não estão enquadrados no quesito 'conheci por acaso'. Mas caso você queria saber mais, é só pedir que eu preparo outro post com temática semelhante, ok? Agora quero saber quem você conheceu por acaso e não consegue mais viver sem. Haha!

Abraços!

Título: O Árabe do Futuro 2*
Autor: Riad Sattouf
Edição: 1
Editora: Intrínseca
Páginas: 160
ISBN: 9788580578805
Nota: 4 de 5

SINOPSE: No primeiro volume da trilogia O Árabe do Futuro, o pequeno Riad, filho de pai sírio e mãe bretã, passou os primeiros anos de sua vida dividido entre a Líbia, a Bretanha e a Síria. Nesta sequência, ele narra os choques de seu primeiro ano como aluno de uma escola síria, onde enfim aprende a ler e escrever em árabe enquanto enfrenta um ambiente rígido e violento. Ele também conhece mais a fundo a família paterna e, apesar dos cabelos louros e das semanas de férias na França com a mãe, faz todo o possível para se tornar um verdadeiro sírio e encher o pai de orgulho.
A vida no campo, a escola no pequeno vilarejo de Ter Maaleh, as incursões ao mercado negro na cidade grande, os jantares luxuosos com o parente que era general e as caminhadas nas ruínas áridas da antiga cidade de Palmira, conforme retratados no livro, são um impactante mergulho na realidade da então ditadura de Hafez Al-Assad na Síria.

Comentários:

O Árabe do Futuro, de Riad Sattouf, nada mais é do que o autorretrato de uma criança cuja infância se torna plural devido ao contato com diferentes culturas e costumes. Era para ser uma HQ divertida de ser apreciada. E até seria, se ele não mexesse tanto com o emocional do leitor.

No primeiro volume da trilogia – já resenhado por aqui – Riad ainda é muito pequeno e por isso não consegue compreender muito bem o porquê de vivenciar tradições tão desiguais, tampouco o contexto político que sei pai tanto faz questão de mencionar.

Já no segundo livro a jornada continua exatamente de onde parou, mas, no meu ponto de vista, ganha mais solidez e aborda questões mais sérias. Nele, toda a família se instala de uma vez na Síria (a trama se passa nos anos de 1984 e 1985), e assim nós iremos presenciando, junto a eles, as péssimas condições do país naquela época (aliás, hoje continua mais ou menos a mesma coisa).

Até quem tem uma noção mínima sobre a realidade do lugar não escapa de impressionar-se com os costumes, com a desigualdade, com a pobreza, com educação, com a (in)segurança, e com várias outras questões abordadas. E é com tudo isso que Riad precisa lidar, especialmente agora que ele passa a frequentar a escola para enfim começar sua alfabetização.

Vale destacar que a escola que Riad está matriculado preocupa-se mais em ensinar o Corão e o hino da Síria através de castigos muitas vezes sem motivos, do que de fato a educar os alunos orientando-os a ler e escrever. Somado a isso, o pai de Riad enfim passa a ver que seu status de doutor não tem valor algum para aquele lugar.

Não vou me alongar no contexto da trama, porque a sinopse já se encarrega de ser bem precisa nesse sentido. Mas gostaria de citar algo que se destaca fortemente aqui: o papel da mulher dentro dessa sociedade. Muita coisa interessante e problemática é explanada. A mãe de Riad, por exemplo, embora não seja oprimida pelo marido, precisa aturar certas condições que, aos poucos, vão desagradando-a. Até ela chegar ao ponto de fazer certas exigências ao marido.

Ademais, as contradições do pai frente a política e aos costumes da Síria continua sendo abordado. Ele percebe as dificuldades, mas permanece se negando a reconhecer os problemas de seu país. Tudo isso, claro, é mostrado sob o olhar de um menino, deixando tudo ainda mais interessante.

Gostei bastante da HQ como um todo, principalmente porque as questões sérias são contatas com certo humor, por um ponto de vista tecnicamente indiferente. A história vai tomando um percurso mais realista, bastante verossímil, o que é muito atrativo. As ilustrações permanecem com a mesma qualidade: traços simples, mas que nos dão uma noção bem verdadeira dos lugares.

É sempre difícil e cruel ler questões voltadas para a desigualdade, injustiça e miséria. Mas recomendo demais esse quadrinho para todos que curtem saber mais sobre outras nações, tradições e costumes de modo generalizado. Apesar de difícil, ele nos gratifica com reflexões bem interessantes.

*Cortesia cedida pela Editora Intrínseca.


Maio foi o mês das mamães literárias por aqui. Agora é a vez de homenagear os papais, afinal hoje é o dia deles. Para tanto, escolhi três pai da literatura que me marcaram fortemente, e que eu espero que sirva de inspiração para muito leitor afora. Vejamos quem são eles, então.

Gif da série de TV Fringe.  :)

- Hans Hubermann, de A Menina Que Roubava Livros (Markus Zasak), tornou-se pai de Liesel pelo acaso. E talvez até isso acontecer ele não tinha noção do quanto esse era o seu melhor papel (sim, Liesel é adoada). Hans é muito amável e protetor, e está sempre disposto a qualquer pela menina. A prova disso se concretiza quando ele descobre 'O Manual do Coveiro' que Liesel escondia. Mesmo não sabendo muito bem ler, Hans decide alfabetizar a menina, sempre com aulas de madrugada. Para quem ainda não leu o livro essas informações podem soar desconexas, mas para quem leu aposto que uma nostalgia boa acaba de se aflorar. De qualquer forma, vale dizer que Hans é um homem admirável, e que ele não poderia faltar nessa lista.

- Mickey Chandler, de Dançando Sobre Cacos de Vidro (Ka Hancock), sempre pensou que ser pai não seria uma escolha para a sua vida. Ele sofre de transtorno bipolar, e sua esposa, Lucy, sofre de problemas cancerígenos. Por isso eles criaram uma regra: nunca terão filhos, para não passar adiante suas respectivas heranças genéticas. Mas tudo muda de direção no 11° aniversário do casal – você já deve imaginar do que se trata. Por isso, muita coisa dramática acontece nesse percurso. É como se de uma hora para outra o verdadeiro significado do amor precisasse ser redescoberto, especialmente por Mickey. Não posso falar demais para não dar importantes spoilers, mas garanto que o nosso personagem em questão tem uma história surpreendente. Ele simboliza a superação e a força, e nos ensina que a paternidade nem sempre pode pode se tratar de uma escolha. Livro maravilhoso, emocionante e que vale a pena ser conferido.

- Steve Miller, de A Última Música (Nicholas Sparks), é o exemplo de pai que não desiste; e que ama acima de qualquer coisa. É uma pena que, infelizmente, ele só conseguiu alcançar o coração da filha (revoltada) quando ficou muito doente. O fim dessa história é de partir o coração, bem emocionante, mas, mesmo assim, reconfortante. Ainda que numa situação triste, Ronnie descobriu o quão maravilhoso o pai é, conseguindo assim ajudá-lo a aproveitar seus últimos dias com conforto e alegria. É como diz o ditado: quando não vai no amor, vai na dor. Porém, não precisa ser necessariamente assim em todas as ocasiões da nossa vida... e foi isso que eu aprendi com esse livro. Vamos amar mais, e dar valor a quem está sempre por perto fazendo algo por nós.


E você, tem algum papai literário que te inspira? Se sim, me conta qual é.

Feliz dia dos pais!
Abraços.

Título: O Árabe do Futuro*
Autor: Riad Sattouf
Edição: 2015
Editora: Intrínseca
Páginas: 160
ISBN: 9788580576931
Nota: 3,5 de 5

SINOPSE: No volume 1, Riad Sattouf, filho de pai sírio e mãe bretã, viveu uma infância peculiar. Ele tinha apenas três anos quando o pai recebeu um convite para lecionar em uma universidade da Líbia. Em Trípoli, o menino entrou em contato com uma cultura completamente distinta e precisou superar o estranhamento diante de novos costumes — experiência que se repetiria pouco depois na Síria, quando o pai foi trabalhar lá. Com o olhar inocente de uma criança, Riad oferece um importante relato sobre os contrastes entre a vida plácida na França socialista de Mitterrand e os regimes autoritários na Líbia de Kadafi e na Síria de Hafez al-Assad. A partir de suas próprias lembranças e sensações, o autor descreve como foi adaptar-se a realidades tão díspares e mostra detalhes de sua vida em família e da relação com outras crianças.

Comentários:

O relato literário em forma de graphic novel de Riad Sattouf é característico por seus traços simples, pela narrativa fluida e descontraída, e pela análise antropológica de diferentes culturas e ideologias. Trata-se de O Árabe do Futuro, uma trama divida em três volumes que veio para nos dar uma experiência de leitura descontraída e, ao mesmo tempo, desconfortante. 

A narrativa autobiográfica do autor começa em 1978 (o primeiro livro termina em 1984). Nessa época ele estava entre o segundo e o terceiro ano de idade. Antes mesmo da narrativa propriamente dita começar, Raid nos conta como seus pais se conheceram, ainda na faculdade. Ele é fruto de uma uma francesa com um sírio.

Vale destacar que o pai de Riad foi para a Europa à procura de melhores condições de estudo, já que seu sonho era se tornar doutor e, com isso, poder lecionar. Apesar disso, ele sempre se mostrara idealista e defensor da nação árabe, inclusive da educação, o que faz esse homem ser constantemente contraditório frente aos seus ideias. Detalhe que isso ocorre durante toda a história.

Assim que finalizou o doutorado o pai de Riad passou a buscar uma vaga de professor em diversas universidades... até ser aceito na Líbia como docente substituto. É assim que toda a família vai morar em outro país. Na realidade, essa é só a primeira parada, já que todos estão constantemente sujeitos à mudanças por conta do pai.

Em linhas gerais, o livro traz a visão de uma criança sobre a política, a cultura e os costumes de diferentes lugares, tudo contado com certo humor e veracidade. O menino não tem muita noção de certas coisas, como o porquê de vivenciar tradições tão desiguais. Mesmo assim ele é apático e obedece tudo que sei pai diz, e não apenas por ser uma criança, mas porque o pai é o seu herói. 

Minha nota implicou no fato de que existem muitas pinceladas políticas, e esse é o tipo de assunto que eu particularmente não me interesso tanto. Não que não seja interessante conhecer outros contextos políticos, independente da época, mas, neste caso, o fator 'gosto' falou mais alto. Para pessoas que não curtem discutir o assunto essa leitura pode soar por vezes enfadonha. 

Por outro lado, eu gostei bastante do humor ácido, das contradições, dos cenários, e, principalmente, por nos levar para uma realidade tão diferente da nossa a ponto de nos fazer refletir sobre o nosso país e a situação que estamos vivendo (quem em nada se compara a certos lugares).

Quanto as ilustrações, eu não sou uma leitora assídua de HQs e por isso não tenho tanta propriedade para comentar a respeito. Porém, eu gostei muito de tudo que vi, e achei que os traços não só se assemelham com ideia de infância como nos dão uma noção bem real dos lugares.

Recomendo aos fãs de quadrinhos, aos que curtem histórias que pautam outras nações, e a quem adora tramas sérias narradas com bom humor. Através do olhar do pequeno Riad nós iremos acompanhar uma realidade que não é comum de ser vista entre os best-sellers da vida.

*Cortesia cedida pela Editora Intrínseca.